Juiz de Fora avança na capacidade de oferecer transplantes

“O transplante me deu uma lição de vida muito grande. Peço às pessoas, às famílias de quem falece, que não deixem de doar”, diz Sebastião Carlos de Almeida, enfermeiro aposentado e paciente transplantado (Foto: Felipe Couri)

O número de transplantes realizados em Juiz de Fora vem crescendo, assim como o de doações de órgãos, o que reforça a importância do trabalho de conscientização sobre o tema. Conforme dados fornecidos pelo MG Transplantes, até julho de 2019 já foram realizados 122 transplantes na cidade, sendo 51 de rins, três de fígado, um de pâncreas e 67 de córneas. Em 2018, foram contabilizados 147 procedimentos, e, em 2017, 152.

Considerando os dados já registrados neste ano, a expectativa é de que o número de transplantes em 2019 ultrapasse a quantidade de cirurgias realizadas nos anos anteriores. Isso porque, segundo o coordenador da Unidade de Prática Integrada de Transplante da Santa Casa, Gustavo Fernandes Ferreira, o recorde de transplantes realizados de janeiro até setembro, que era de 91, já foi superado pela instituição em 2019. “O que podemos afirmar é que o número de doações aumentou e o de transplantes também. O transplante de fígado é uma realidade na região. Foram mais de 20, somando os procedimentos feitos pela Santa Casa e pelo Monte Sinai, que estão habilitados. Também foram realizados dois transplantes de fígado-rim na cidade”, explica Gustavo.

Além dos procedimentos já citados, de 2017 a 2019 também foram realizados 62 transplantes de medula na cidade, de acordo com o Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), que já realizou, ao todo, 364 procedimentos deste tipo. A instituição também prevê crescimento no número de procedimentos, principalmente a partir do ano que vem, quando deve retomar a realização de transplantes renais e quando os transplantes de medula passarão a ser feitos em uma enfermaria que passou por obras para aumentar a segurança dos procedimentos.

“Graças a uma cooperação entre o Ministério Público do Trabalho e o HU, por meio de uma doação, pudemos fazer a obra, que ficou pronta esse ano, colocando a nossa enfermaria em condições de realizar todos os tipos de transplante com segurança, resolvendo problemas que aumentavam o risco infeccioso”, detalha o hematologista Abrahão Elias Hallack Neto, que comanda a equipe médica. “Nosso intuito é ter condições de oferecer mais transplantes do que fazemos hoje, com a qualidade adequada para a população”, afirma Abrahão.

Ao mesmo tempo, o HU também prepara sua equipe para retomar a realização de transplantes renais. O hospital tinha credenciamento para realizar este tipo de tratamento, mas, em função de questões operacionais, havia interrompido a oferta do serviço, embora ainda ocorra o acompanhamento dos pacientes que passaram pelo procedimento antes do hiato. Agora, o HU voltou a ter credenciamento e prepara seus profissionais para a retomada dos procedimentos.

“O hospital passou por mudanças em sua estrutura e muitos profissionais foram contratados nos últimos quatro anos. A nossa ideia é conseguir, efetivamente, fazer os procedimentos a partir do ano que vem”, afirma a médica responsável pelo serviço de transplante renal do HU e tutora da Liga Acadêmica de Transplante de Tecidos e Órgãos (Latto) da UFJF, Hélady Sanders Pinheiro, que também é membro da Diretoria da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Como funciona?

Habilitado para realizar transplantes de córneas desde 2016, o Monte Sinai já realizou 30 cirurgias deste tipo este ano e também apresenta tendência de crescimento. No primeiro ano foram 28 transplantes de córnea, número que se manteve em 2017 e que subiu para 40 em 2018. A instituição também já realizou 14 transplantes de fígado, com resultado de 100% de sucesso na sobrevida.

O procedimento cirúrgico no qual um tecido ou órgão doente é substituído por outro saudável precisa ser antecedido por um gesto altruísta, que pode se feito a partir de doadores vivos (no caso de transplantes de rins ou de medula) ou mortos. “Qualquer pessoa pode ser doadora, exceto portadores de doenças infecto-contagiosas, portadores de HIV ou câncer. Hoje, mais de 80% dos transplantes é realizado com sucesso e um único doador pode salvar mais de 20 vidas”, esclarece o cardiologista e coordenador das Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Monte Sinai (Cihdotts), Marcos Valério Louzada Carvalho. Ele ainda acrescenta que um doador não precisa pagar ou assinar nada: basta que ele comunique sua família, para que, se for necessário, o procedimento seja autorizado. Marcos Valério detalha que há doações em vida e as que acontecem em função das mortes encefálicas. Nos casos em que o doador é vivo, o receptor precisa ser cônjuge ou parente consanguíneo do doador e ter mais de 18 anos. Se não houver parentesco, é preciso ter autorização judicial.

Ele explica ainda como funciona o processo de transplante, desde a doação até a cirurgia final. “Os órgãos e tecidos doados percorrem um caminho bem definido. Constatada a morte cerebral, o hospital aciona a coordenação hospitalar de transplante, que entrevista a família. Autorizada a doação, a Central de Notificação, capacitação e distribuição de órgãos do estado é acionada, seleciona os receptores e aciona as equipes de transplantes dos hospitais para remover o órgão e levá-lo ao local onde a cirurgia será realizada.” A morte cerebral ou encefálica é, segundo o cardiologista, a parada irreversível do encéfalo, do cérebro e tronco cerebral. Ela acontece quando o cérebro deixa de receber o fluxo sanguíneo e, consequentemente, para de realizar as suas funções vitais. “A constatação da morte encefálica é feita, por pelo menos, dois médicos, a partir de exames clínicos realizados, em intervalos de horas, e deve ser confirmada por meio de exames de imagens”.

Capacitação das equipes é prioridade

Embora a quantidade de transplantes e de órgãos doados em Juiz de Fora esteja aumentando, há ainda muito trabalho a ser feito. De acordo com a médica Isabelle Ventura, coordenadora da Central de Notificação de Captação e Doação de Órgãos e Tecidos (CNCDOs) do MG Transplantes em Juiz de Fora, desde o início do ano, a forma de atuação da unidade reforçou a frente de trabalho que vai aos hospitais, com o objetivo de apoiar a capacitação das equipes. Só em 2019, cem médicos participaram de cursos sobre o diagnóstico de morte encefálica, sem contar outros agentes de saúde envolvidos no processo, que também participaram como ouvintes. Este trabalho é necessário porque as informações sobre a doação de órgãos devem estar disponíveis para a população em geral e devem circular dentro das unidades de saúde.

Com a capacitação, a intenção é tornar o trabalho mais próximo e mais educativo. “Falta falar sobre a doação de órgãos no todo da sociedade brasileira, assim como falta informação sobre doação de órgãos na formação dos profissionais de saúde. Há pouco conteúdo sobre doação e diagnóstico de mortes cerebrais dentro das faculdades”, afirma Isabelle. Isso aponta para uma necessidade de formação, que vem sendo respaldada pelo Estado, de acordo com ela. “Nesse ano tivemos vários cursos, e temos a perspectiva de que outros aconteçam no segundo semestre. Há investimento na capacitação e isso é muito vantajoso”, reforça a médica.

Em relação à estrutura também há muito o que melhorar, segundo a médica. “Temos Estados que são referência nacional em logística, organização e estrutura técnica, que é muito mais elaborada que a nossa. No entanto, também temos uma qualidade muito grande na comissão estadual, que tem o entendimento da necessidade do aprimoramento das equipes.” Isso, segundo ela é primordial para que mais pacientes possam ser beneficiados pelo tratamento. “Em 2017, o transplante de fígado era bem inicial, mas, atualmente, ele é uma realidade. Tivemos transplantes de pâncreas também, mas como a indicação é mais restrita, o número não é tão alto. Em relação aos números, tivemos um aumento substancial das doações, mas ainda precisamos avançar.” Os dados do MG Transplantes mostram que há uma fila numerosa de pessoas que aguardam por órgãos. Ao todo, são 292 pessoas aguardando rins, três precisam de fígados, seis aguardam transplantes de pâncreas-rim e 25 precisam de córneas.

“Fundamental”
Conforme o coordenador da Unidade de Prática Integrada de Transplante da Santa Casa, Gustavo Fernandes Ferreira, embora Juiz de Fora seja a maior central de transplantes da região, ainda é preciso ir além e fortalecer o procedimento como opção terapêutica. “Ainda temos muitas pessoas aguardando por um rim, somente na Santa Casa. O transplante é um caminho fundamental na vida das pessoas. Tanto a doença renal crônica, quanto a insuficiência hepática e a diabetes são patologias muito graves, em que o transplante pode significar uma importante melhora na qualidade de vida do paciente, permitindo também uma redução de custos. Porque se pensarmos em uma diálise como tratamento, os gastos são muito altos. Quando transplantamos, não só reduzimos o custo da saúde para a sociedade, como também aumentamos a chance de vida dessa pessoa.”

Cerca de 40% das famílias se recusam a doar

Um consenso entre todos os profissionais ouvidos pela Tribuna é a ideia de que ainda falta informação para o público em geral, o que influencia diretamente na falta de doadores. A médica e tutora da Latto da UFJF, Hélady Sanders Pinheiro, pontua que dois terços dos órgãos são doados por pacientes que evoluem com morte encefálica. Ela decorre em função de um acidente, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC), em que há uma lesão muito grave do sistema nervoso, que acaba morrendo. Em seguida, os outros órgãos vão parando de funcionar .”Quando ocorre essa condição, as famílias são abordadas para que possam doar os órgãos dos seus parentes. A grande dificuldade que vemos é que cerca de 40% das famílias se recusam a doar.” O motivo, muitas vezes, tem raiz nas dúvidas sobre o processo. “Elas suspeitam que pode haver algo ilícito, mas hoje o Brasil tem uma lei muito rigorosa, que é cumprida integralmente, e o processo é muito transparente.”

Acima de tudo, conforme Hélady, a ausência das informações ainda é a maior barreira. Por isso, há um trabalho constante para mostrar o quanto o ato de doar é capaz de provocar benefícios, que passa, por exemplo, pelos relatos compartilhados por quem já passou por um transplante. As situações, de ponta a ponta, envolvem medos e muitos mitos. “‘Se eu não doar, eles vão vender os órgãos’. Isso não existe. Todo o regulamento precisa ser cumprido à risca. Por isso, as entidades que lidam com o transplante de órgãos trabalham com as campanhas de Setembro Verde. Na UFJF, a Liga Acadêmica de Transplantes de Órgãos promove atividades que levem conhecimento para a população.”

É o que está programado para acontecer no próximo sábado (28). “Das 8h ao meio-dia, a equipe da Liga vai estar no campus da UFJF, oferecendo aferição de pressão e informações sobre as doações de órgãos. Além dessa atividade, também são realizadas visitas em escolas para estudantes do ensino médio, que são considerados multiplicadores desse conhecimento”, conta Hélady. Por isso, as ações de conscientização são tão importantes. “Teríamos a necessidade de fazer um número maior de transplantes. Além disso, só é possível transplantar quando todos da mesma família têm a mesma opinião. Se alguém tem dúvida, não fazemos. Mas o brasileiro é generoso, se souber que vai ajudar, ele ajuda. Esse tratamento é a diferença entre a vida e a morte de muita gente.”

Vida nova

O enfermeiro aposentado Sebastião Carlos de Almeida ficou sabendo que precisaria de um transplante em março de 2018. Ele já fazia tratamento renal desde 2008, quando foi encaminhado ao antigo Centro Hiperdia, hoje Centro Estadual de Atenção Especializada (Ceae), Eixo Hipertensão Arterial Sistêmica, Diabetes Mellitus e Doença Renal Crônica. Depois de dez anos de tratamento, o rim de Sebastião chegou a 8% de drenagem, momento em que ele foi encaminhado para a hemodiálise. “Confesso que entrei lá com resistência. Eu pensava que era preferível morrer. Era para ter começado a hemodiálise em novembro de 2017, mas segurei até março de 2018. Meu caso não tinha reversão, ou eu faria hemodiálise pelo resto da minha vida, ou eu faria o transplante. Eu viveria até o dia que desse.”

A resistência, no entanto, precisou ser quebrada. “A morte veio com crueldade. Fiquei três dias em casa com falta de ar. Meus pés ficaram muito inchados, mas ela não me levou. Desci para a UPA à pé, às 6h. Pensei comigo que se eu sobrevivesse até chegar lá já estava bom. Quando cheguei ao balcão, disse: ‘eu estou morrendo’. Assustei a atendente e ela chamou o médico. Depois disso, eu passei mal. Quando acordei estava com uma sonda, sem roupas. Chamo isso de sorte”, narra Sebastião.

Ele passou por sessões de hemodiálise por um ano e quatro meses, até que foi surpreendido por um telefonema da central de transplantes. Ele disse não gostar de atender números de telefone diferentes, mas naquele dia, ao primeiro toque, não hesitou. “No dia 7 de agosto desse ano me ligaram às 16h. Estava estacionando no HU para fazer a hemodiálise. Quando foi 19h, já estava no centro cirúrgico da Santa Casa.” A doadora do rim era uma jovem de 21 anos. Havia, segundo Sebastião, uma pessoa em sua frente na fila, mas ela não pode fazer a cirurgia por outros problemas de saúde.
“Mais uma vez tive sorte. Parece que eu estou 21 anos mais novo. Estou me sentindo realmente assim. Tenho 66 anos, mas me sinto de novo aos 40.

Nem eu esperava uma recuperação tão rápida. Não tive nenhum problema. É engraçado, porque eu achei que fosse morrer antes.” Sorridente, Sebastião mostra com orgulho a cicatriz do procedimento, que completa 50 dias nessa sexta-feira (27). Ele, que já tinha desistido de viver, hoje, alimenta a esperança de quem ainda está na fila aguardando por um órgão. “O transplante me deu uma lição de vida muito grande. Peço às pessoas, às famílias de quem falece, que não deixem de doar, porque tem gente que não tem um rim, córnea, coração, fígado. Tem muitas coisas que um paciente que tem morte cerebral pode doar. Acho que se as pessoas puderem parar para pensar, vai ajudar muito. Carrego comigo muito alívio e muita gratidão.”

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Postado originalmente por: Tribuna de Minas – Juiz de Fora

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