Setor cervejeiro profissional dobra em cinco anos em Juiz de Fora

Já são 30 cervejarias locais credenciadas pelo Ministério da Agricultura na cidade, o dobro do contabilizado em 2018

Entre 2018 e 2022, o número de cervejarias registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em Juiz de Fora dobrou. Segundo dados da União Cervejeira da Zona da Mata (Unicerva ZM), atualmente, o município conta com 30 cervejarias, o dobro do contabilizado em 2018, quando a cidade possuía em torno de 15 cervejarias regularizadas em seu setor cervejeiro. Dessas 30, 19 possuem unidades fabris e 11 são ciganas, ou seja, produzem a bebida em fábrica terceirizada.

A tradição cervejeira em Juiz de Fora existe há mais de um século. Nesta sexta-feira, dia 5 de agosto, é comemorado o Dia Internacional da Cerveja, bebida que faz parte da história da cidade, a primeira do estado de Minas Gerais a ter uma fábrica exclusiva para essa produção. Com o reconhecimento da cidade como um polo do setor cervejeiro da Zona da Mata, em 2017, o Estado elevou Juiz de Fora ao status de Arranjo Produtivo Local (APL). Neste ano, a Prefeitura (PJF) sinalizou propostas para apoiar e fomentar esses arranjos.

Um projeto de lei encaminhado à Câmara Municipal, em dezembro do ano passado, defende uma política pública municipal para “fortalecimento da economia regional por meio da integração e da complementaridade das cadeias produtivas locais e da geração de processos permanentes de cooperação, difusão e inovação”. O texto ainda destaca a importância da viabilização e consolidação, em curto prazo, de Arranjos Produtivos Locais como o do setor cervejeiro e dos segmentos de alimentos e laticínios, de biotecnologia e o têxtil-confeccionista. Além do incentivo aos APLs, Juiz de Fora possui uma lei (13.840) que dispõe sobre a criação de uma rota turística e cultural das cervejas.

Procurada, a PJF afirmou, por meio da Secretaria de Turismo, que, em atendimento à lei municipal, efetivou, em parceria com o setor, o “Caminho das Cervejas Artesanais”, um roteiro turístico, constituído por “um tour de visitação com explicação sobre o sistema de produção e informações sobre harmonização, degustação e compra do produto”.

Mais de 90 ‘paneleiros’ no setor na cidade e na região

A Associação dos Cervejeiros da Zona da Mata (ACZ), fundada em agosto de 2014, tem como foco os chamados “paneleiros”, aqueles que produzem cerveja de forma caseira, geralmente para consumo próprio, sem foco único na distribuição comercial. Segundo o presidente da associação, Anderson Coelho, a ACZ possui cerca de 90 produtores parceiros, a maior parte de Juiz de Fora, mas também de cidades vizinhas. Em sua avaliação, o mercado cervejeiro em Juiz de Fora possui alto potencial econômico, mas ainda pouco explorado. “Do público consumidor, só uns 3% ou 4% são consumidores de cervejas locais. Há uma possibilidade de crescimento enorme que precisa ser avaliada.”

Assim como todo o segmento de turismo e eventos, o setor cervejeiro sofreu os impactos da pandemia. “Hoje em dia, vejo nosso setor em estabilidade ou até mesmo em retração. Os pequenos produtores, principalmente, ainda estão sofrendo com a crise econômica. Aqueles que, com muito custo, conseguiram sobreviver à pandemia, ainda não foram capazes de recuperar sua estabilidade financeira.”

De acordo com Anderson, há uma articulação entre entidades do setor cervejeiro da cidade e a Prefeitura para fomentar a realização de eventos. “Há planos para pensarmos em eventos circulares nas praças de Juiz de Fora, para aproximar o público do nosso produto. Já ocorreram eventos grandes na cidade, no Parque Halfeld, por exemplo, mas acho que ir até as praças seria uma forma de atingir uma população que ainda não nos conhece e pode ser um consumidor em potencial.”

Hofbauer: receita do século XIX

Uma das primeiras cervejas de Juiz de Fora foi criada atrás dos muros de uma igreja. Importada da Holanda, a receita foi trazida para a cidade mineira por irmãos e padres redentoristas em 1893. Na Paróquia Nossa Senhora da Glória, localizada no Morro da Glória, os clérigos instalaram o maquinário com peças originais vindas da Europa e começaram a produzir, a princípio para consumo próprio, a cerveja que hoje leva o nome de Hofbauer.

A partir de 2019, a Hofbauer foi disponibilizada para o público. O padre responsável pela produção, Jonas Machado, afirma que, atualmente, por mês, são produzidos mais de três mil litros de cerveja dos tipos Pale ale, Weiss e Pilsen. “Produzimos cerca de três vezes ao mês para consumo próprio, e o excedente nós disponibilizados para o público.” O maquinário e a receita ainda são as mesmas do século XIX, acrescidas de algumas tecnologias que hoje permitem a distribuição comercial, que acontece na própria Igreja da Glória. A cerveja, segundo Jonas, não possui um valor fixo. Os padres pedem uma contribuição para a aquisição, revertida a obras sociais que a Igreja possui no Bairro Floresta.

Pelo que se sabe, a cerveja é a única fora da Europa a ser produzida por padres em um convento. “Nosso objetivo não é só comercial. Nós temos a intenção de preservar a história e a cultura dos primeiros padres redentoristas que chegaram na cidade.”

‘JF possui a cerveja na construção de sua história’

Estudar o mercado cervejeiro em Juiz de Fora foi o objetivo da jornalista Mari Pena por quatro anos. Ela lançou, em 2019, com incentivo da Lei Murilo Mendes, o documentário “Além do Malte: cultura, cerveja e história em Juiz de Fora”, que conta como a produção cervejeira faz parte da história juiz-forana, iniciada com a migração européia no século XIX.

“Os primeiros alemães e austríacos chegaram a Juiz de Fora em 1858, contratados por Mariano Procópio, para constituir uma colônia agrícola. Seguindo seus hábitos e cultura, aqui fundaram cervejarias. Em 1861, o imigrante alemão Sebastian Kunz fundou a primeira delas, a Cervejaria Barbante, como ponto de encontro dos colonos. Na sequência, Juiz de Fora chegou a ter nove cervejarias simultâneas, que ganharam expressividade e chegaram a vender para diversos estados brasileiros. Com influência holandesa, a cervejaria do convento redentorista da Igreja da Glória foi construída em 1894.”

A jornalista ressalta que incentivar produtores locais é valorizar a identidade juiz-forana, visto que o mercado movimenta diversos setores, como o de eventos, indústria, comércio e turismo. Para ela, Juiz de Fora possui um potencial, muitas vezes oculto, de ser uma região conhecida pela qualidade de suas cervejas. “Ribeirão Preto é conhecida como a Capital do Chopp, Blumenau é famosa pela Oktoberfest, Tiradentes vem recebendo público de diversas partes do país para o Trembier. Juiz de Fora tem potencial para ser reconhecida como uma cidade estratégica para o mercado cervejeiro. É importante realizar ações para que a população entenda que a identidade juiz-forana está relacionada com a cerveja – e que ela representa o que a cidade foi, o que é e o que ainda pode ser.”

As informações são da Tribuna de Minas, associada AMIRT

Foto: Divulgação

 

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