Mercado solidário garante alimentação no Dom Bosco

O cenário proposto pela pandemia do coronavírus exige adaptação. Pensando nisso, o Projeto Dom, que realizava oficinas e atividades voltadas para crianças e jovens moradores do Bairro Dom Bosco, na região da Cidade Alta de Juiz de Fora, também se reinventou, e deu origem a um mercado solidário. A sede do projeto passou por uma transformação para que a iniciativa, que visa a contribuir com a alimentação da população durante a pandemia, funcionasse. Desde então, já foram arrecadados e doados 3.347 cestas básicas, 57 toneladas de alimentos não perecíveis, 651 kits de higiene e limpeza, 4.547 máscaras de proteção, 301 litros de leite, 560 quilos de alimentos orgânicos, 300 informativos sobre prevenção, entre outros artigos.

O projeto nasceu da iniciativa de cinco jovens, que tiveram a sensibilidade de perceber que a visão que a cidade e a mídia tinham do Bairro Dom Bosco não representava as pessoas que vivem lá. Edmar Cassimiro, Gleison Martins, Lason Francisquini, Samuel Lima e Zaine Maria Roque se reuniram por meio da arte do esporte e das mídias para mostrar tudo o que o bairro tem de positivo. Atualmente, Edmar, Zaine e Samuel permanecem no Dom, e Gleison e Lason dão continuidade a outras iniciativas.

Desde 2018, quando foi criado, o grupo realizou eventos como o Dom Bosco Cultural, com apresentações de jovens talentos locais e com o resgate da história das pessoas do bairro. Com o coronavírus, no entanto, o trabalho feito pelo Dom precisou mudar de foco. “Ficamos assustados com o que estava acontecendo no país. Começamos a fazer reuniões virtuais para organizar uma ação para evitar que a Covid-19 passasse de maneira avassaladora pelo bairro”, conta Edmar.

Em parceria com o Projeto Amargem, que conta com Raphael Leonello, Allana Ramos, Eduarda Daldegan e Lívia Silveira, a ação solidária foi organizada, a partir de uma ideia do Mulheres da Parada, que criou um mercado solidário em São Gonçalo (RJ). Os dois projetos começaram a movimentar as redes sociais com campanhas de vaquinha e arrecadação. As doações começaram a chegar. Foi aí que os livros e materiais da garagem alugada pelos fundadores do Dom para a realização das atividades saíram, e os alimentos começaram a entrar. Uma lista, que mostra como ocorrem as doações, com horários e demais regras, foi deixada na porta, e o mercado solidário começou a funcionar.

Voluntários atuam na organização do serviço, que visa a complementar subsistência das famílias (Foto: Fernando Priamo)

 

Como funciona

As pessoas podem escolher até cinco itens básicos, como arroz, feijão, óleo, farinha; três itens extras, que incluem sabonete, papel higiênico, escova e pasta de dentes, entre outros; e também três itens de limpeza, como água sanitária, detergente e sabão em pó.

A limitação é para que todas as 500 famílias do bairro possam ter acesso aos produtos ou complementar o que conseguem comprar com o próprio salário, com o auxílio emergencial ou com doações de outros projetos. Outros parceiros colaboraram com a diversidade de itens, como o Sítio Pacha Mama, que doou verduras e legumes orgânicos, e a MRS, que fez uma doação de cestas básicas.

Combater a fome e a vulnerabilidade são os objetivos centrais, mas outras preocupações e cuidados foram se somando. A preocupação com o comércio local, por exemplo, foi uma delas. Uma compra foi feita nos mercados e bares do bairro, para movimentar também a economia e levar itens que não eram oferecidos no mercado solidário, como chocolate e azeitona. Um produtor de hortaliças da comunidade também teve a sua produção comprada e disponibilizada no mercado solidário.

Preocupação e cuidados com a saúde

Quem chega ao Dom para ser atendido no mercado solidário recebe máscaras, não só para si, mas para toda a família. No chão, fica um pano com água sanitária para limpar os calçados. Os voluntários, especialmente os que vêm de fora do bairro, trabalham com máscaras, luvas e capotes, para a segurança de todos. Há também um esforço para que a comunidade receba a orientação correta sobre como evitar a doença, com a entrega de panfletos e abordagem.

Edmar Cassimiro conta que ninguém foi esquecido. Cada rua tem um horário para comparecer ao mercado. Ele vai, pessoalmente, às casas dos moradores para chamar algum representante para passar no mercado. “Para os idosos, fizemos uma campanha junto ao Projeto Conectar ao Bem, do Corpo de Bombeiros, que consiste em visitas de voluntários que levam as cestas e os kits de higiene, para que eles não tenham que sair de casa.”

Todos esses cuidados, segundo Edmar, refletem em sentimento de pertencimento e na mudança do olhar que o bairro tem para si mesmo. Uma lacuna que é preenchida, para ele, porque o poder público, na maioria das vezes, não alcança as comunidades. “Quando o projeto é feito pelos próprios moradores, eles têm um olhar especial, e isso ajuda a fazer com que o acesso chegue a todos. Porque se o projeto vem de fora, faz o cadastro só de quem atende. Vejo que os moradores se sentem ouvidos, assistidos e protegidos. Cada dia que eu passo nas ruas, recebo olhares carinhosos, energia verdadeira. O que percebemos é essa sensação de que a comunidade pode ficar tranquila porque tem o projeto para cuidar dela.”

Os interessados em fazer doações podem fazer contato com o Projeto Dom pelo telefone (32) 99164-9048 ou pelas contas no Instagram @grupodomjf ou @ProjetoAmargen. Há também a intenção de que outras comunidades também possam se inspirar nesse trabalho e criar ações semelhantes.

Postado originalmente por: Tribuna de Minas – Juiz de Fora

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